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LANTERNAS NAS TREVAS


IRMÃO ANDRÉ


Entramos em Belgrado no dia 01/05/1957. Era o Dia do Trabalho, o maior feriado do comunismo. Em toda a cidade, não havia lugar em nenhum hotel; os restaurantes estavam lotados.

Eu e Nikola (um jovem estudante de engenharia que tornou-se intérprete) teríamos dormido no carro aquela noite, se o pastor da igreja onde devíamos falar, não nos tivesse levado para sua casa. E foi naquela igreja que tivemos a experiência que deu forma ao meu ministério até o momento presente.

Eu e Nikola levantamo-nos no púlpito, e nos vimos face a face com um auditório lotado. Estava tão cheio que eu nem tinha lugar para armar o meu flanelógrafo, onde ilustrava as histórias do evangelho. No meio do culto, começaram a martelar algo. Logo em seguida, vimos que haviam tirado uma porta dos gonzos, para que a multidão que se acomodara numa sala ao lado, pudesse ouvir também. Não eram os camponeses de olhar solene que eu aprendera a amar, mais uma congregação sofisticada, bem vestida, citadina.

Bem, depois da palestra, eu e Nikola fizemos o apelo. Pedimos que todos os que quisessem entregar a vida a Cristo ou que desejassem reafirmar uma decisão feita anteriormente levantassem a mão.

Todas as mãos se levantaram.

Certamente, eles não haviam entendido! Expliquei outra vez que o passo que iam dar era sério. Apresentei claramente as condições do discipulado sob um governo hostil. Então, repeti o apelo, desta vez pedindo às pessoas para se levantarem.

Toda a congregação se levantou.

Fiquei abismado. Eu nunca vira tanta prontidão. Levado por elas, comecei uma descrição entusiástica das disciplinas diárias da oração e da leitura da Bíblia, que transformariam recém-nascidos em Cristo, em soldados amadurecidos para as suas fileiras.

Eu estava apresentando o plano para estudo da Bíblia que me fora ensinado na escola de Treinamento Missionário, quando notei que ocorrera uma transformação no auditório. Pela 1ª vez o povo daquela congregação tão responsiva não estava me olhando de frente. Estavam olhando, ou para as mãos, ou para as costas do banco à sua frente, para qualquer lugar, menos para mim.

Confuso, voltei-me para o pastor. Ele também parecia embaraçado, ao me dizer, através de Nikola:

“Oração, sim, isso nós podemos fazer todos os dias. Gostei do que você falou a esses respeito. Mais leitura da Bíblia..... Irmão André, a maior parte deste povo não tem Bíblia.”

Arregalei os olhos, incrédulo. Eu estava acostumado com essa ideia, na zona rural, onde há muitos analfabetos. Mas na Belgrado culta, cosmopolita?

Virei-me para a congregação:

“Quantos de vocês possuem Bíblia?” perguntei.

Em todo o auditório, 7 mãos se levantaram, inclusive a do pastor. Fiquei petrificado. Há muito eu distribuíra as que trouxera comigo. Agora, o que deveria deixar com aquele povo tão ansioso para aprender, tão necessitado de orientação no árduo caminho que havia escolhido, em contraposição aos milhares que estavam marchando em outra direção?

Juntamente com o Pastor, elaboramos um sistema de empréstimo de Bíblias: um calendário de estudo bíblico combinado com uso pessoal, tantas horas de tal e tal dia, para cada membro. Mas naquela mesma noite, tomei uma resolução que vem se tornando cada vez mais clara com o passar dos anos. Naquela noite eu prometi a Deus que traria para aqueles filhos seus que estavam por detrás da parede que homens haviam construído, todas as Bíblias que pudesse conseguir. Com que dinheiro comprar as Bíblias, ou como entrar com elas nos países comunistas, não sabia. Só sabia que haveria de trazê-las para a Iugoslávia, para a Thecoslováquia, e para cada um dos outros países comunistas, onde quer que Deus abrisse a porta um pouquinho, o tempo suficiente para eu me esgueirar para dentro. 

*O Contrabandista de Deus / Irmão André. 3ª. ed. Belo Horizonte: Betânia, 2008. Pág. 148 e 149.